O clima nos bastidores do Carnaval do Rio de Janeiro já estava quente, mas ferveu de vez antes mesmo da apuração e dos últimos desfiles das escolas de samba. Poucas horas antes do seu desfile, o Salgueiro, que neste ano homenageia a carnavalesca Rosa Magalhães, pegou todo mundo de surpresa ao emitir um comunicado que deu o que falar.
No comunicado, a escola de samba diz ter "sua plena confiança na realização de julgamentos justos", afirmando confiar na "lisura, no comprometimento e na condução séria" da LIESA (Liga Independente das Escolas de Samba do RJ) e em Gabriel David, marido de Giovanna Lancellotti e presidente da liga.
Mas o que está por trás dessa atitude inesperada? De acordo com o jornal O Globo, existe uma tensão bem maior no Salgueiro envolvendo a cúpula do jogo do bicho e um desconforto antigo que voltou à tona.
Segundo O Globo, o principal motivo do comunicado seria o inconformismo do patrono do Salgueiro, Adilson Coutinho Filho, o Adilsinho, com o Carnaval de 2025. No ano passado, a escola fez um desfile sobre a relação humana com a proteção espiritual, mas acabou não se posicionando no TOP 6 e sequer retornou para o desfile das campeãs, o que gerou polêmica.
No entanto, o contraventor Adilsinho, que atualmente está foragido por associação com um cassino clandestino e a venda de cigarros ilegais, teria atribuído as notas baixas à má relação que mantém com bicheiros da chamada "velha guarda" do jogo, citando nomes como Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, patrono da Vila Isabel, e Anísio Abrahão David, ligado à Beija-Flor.
A tensão, porém, é de outros carnavais. Em uma ligação interceptada pela Polícia Federal, Adilsinho teria falado sobre a intenção de formar um novo grupo de força na contravenção: "O 'verde e branca' falou comigo de fazer uma nova organização. Só que eu não consigo falar com ele. Eu também quero, eu também quero poder", disse ele no áudio vazado.
Segundo a PF, 'verde e branca' seria referência a Rogério Andrade, patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel e marido de Fabíola Andrade, que segue preso por acusação de ser o mandante de um assassinato. O motivo para o 'apelido' vem justamente das cores da escola de samba.
De acordo com o jornal, essa 'nova organização' teria como alvo superar a 'velha cúpula', criada na década de 1970 para reduzir conflitos com uma divisão de territórios. Quanto a isso, o próprio Adilsinho já tinha decretado o racha: "Já deu, já passou! É outra geração agora! Tem que entender! Não tem santo... é tudo malandro! Tudo bandido mesmo! Trata a gente bem na vaselina, mas quer ser centralizador! A velha cúpula já foi há muito tempo".
Desde que o áudio se tornou público, em 2022, a relação entre Adilsinho e a 'velha cúpula' teria ficado ainda mais estremecida. E, depois do Carnaval de 2025, o patrono da escola de samba optou pela discrição, pedindo para retirarem menções ao nome dele da quadra e do barracão e orientando integrantes a evitarem citar seu nome em entrevistas e pronunciamentos.
A atitude teria como objetivo tentar desvincular a imagem de Adilsinho do Salgueiro, também pelo fato dele estar foragido, apostando que isso possa abrir espaço para um julgamento mais favorável no Carnaval. Isso explica a nota enviada para a LIESA e que citou Gabriel David.